15 de julho de 2026

Festa Junina

Semana que vem começa o período de festa junina, com suas bandeiras de papel crepom colorido, música caipira, barracas de comidas típicas (e outras guloseimas não tão típicas assim) e dança de quadrilha.

Sinto que a coisa desandou aqui em SP. 

Virou mais uma festa escolar usada para tirar dinheiro dos pais com ingressos de preço exorbitante (como se as mensalidades já não o fossem) e comidinhas em pratos de plástico que custam horrores.

Pensando nesse custeio, lembrei de minha infância.

Estudei em um colégio de madres no Grande ABC, onde a festa junina era usada para levantar dinheiro para a igreja local, numa espécie de quermesse. Naquela época éramos todos inocentes, 13, 14 anos de idade. Hoje vejo como seria uma experiência de trabalho infantil/ escravo do qual os alunos não viam nem cor do dinheiro. Mas não pra nossa turma.

Éramos cinco grandes amigos, inseparáveis e parceiros em tudo. Como nos conhecemos é uma história para ser contada em outro momento.

Naquela festa junina tivemos a brilhante ideia de negligenciar o trabalho nas barracas, montar um empreendimento comercial mais interessante, voltado para o sentimento de raiva e vingança alheia. Ficaríamos responsáveis pela cadeia da festa.

A coisa deveria funcionar da seguinte forma (nomes não representam a realidade, sendo usados aqui apenas como mera figuração): Deolane tinha raiva do Mario, ela procuraria um dos quatro delegados ou o carcereiro e pagaria um real para colocar Mário na lista de procurado pela justiça. Mário então seria caçado pela festa toda pelos delegados e seria arrastado até a cadeia, onde ficaria por cinco minutos exatos, contados pelo carcereiro que usaria o cronometro do professor de educação física. A própria cadeia seria a sala de depósito de materiais de educação física, com pneus velhos, bolas, cones e redes, sendo que a porta da sala era na realidade um portão de barras de ferro, que ganhou nesta data uma linda canequinha de ferro para que os detentos pudessem bater a vontade e externar seu ódio nas barras.

Plano perfeito, pensamos. Até que Mário, quando saiu de seu calvário, resolveu se vingar de Deolane, pagando não apenas para prender ela, mas para prender Ruth, a melhor amiga fofoqueira. Logo não apenas Deolane estava pagando para arrastarmos Mário novamente, como Ruth achou que seria legal oferecer-lhe companhia, mandando prender Carlos, melhor amigo de Mário. 

E assim se fez a zona.

Em poucas horas tínhamos prendido boa parte dos alunos da quinta a oitava série, além de alguns poucos meninos da terceira série que pagavam para serem presos e curtir a vibe. Cada um com a sua ideia, não estávamos lá para julgar, mas sim para cumprir a ordem do dinheiro.

Em determinado momento, cansados da labuta incessante, nos encontramos sentados a beira da quadra analisando o conteúdo de nossos bolsos. E para nossa surpresa o recheio era pleno de moedas e notas num montante que até então nunca havíamos colocado nossas mãos.

Olhamos gravemente uns para os outros, crianças cheias de desejos e vontades próprias. Pensamos em tudo o que poderíamos fazer com aquele dinheiro: chicletes, refrigerante, fliperama!

No final do dia nos encontramos frente a madre superior, coordenadora da festa e das barracas. Uma pena não termos conseguido tantos recursos quanto as demais barracas, demos tudo de nós pela causa mas o publico não aceitou a ideia da coisa, uma pena.  

Lembranças de um tempo qualquer

Quanto tempo se passou? Você se lembra?

Perdi as contas em algum momento, mas nem por isso esqueci tudo o que vivemos.

Interessante, anos depois, ainda ter fixo em minha memória o apagar das luzes e o toque sutil da água quente, da pele, da duvida crepitando na mente e ao mesmo tempo da certeza absoluta do desejo.

Como predito certamente você já me esqueceu, mas tudo bem. É o mal que a água faz quando se afoga, e o salva vidas não está lá. Não era assim que a canção dizia?

As vezes me pego vendo fotos do passado, relembrando momentos íntimos, mas é tarde demais pra mim.

Se por acaso acabar por aqui, relaxe, é puramente platônico. Esse amor arrebatador se acabou da forma como tinha de acabar, e está tudo bem.

O louco é compreender o quão infinito o amor pode ser, e o quão imenso pode ser a capacidade humana de oferecer esse bem querer de forma tão simples.

No fundo espero que esteja bem, que viva sua vida plenamente assim como tenho vivido a minha.

 

28 de maio de 2025

2025

Cheguei tarde da noite.

Não tinha intenção de chegar tão tarde, ou pelo menos não tinha a intenção deliberada de demorar tanto pra chegar. As coisas foram simplesmente acontecendo, uma após a outra, numa sequência sutil no começo mas truculenta quando se percebe a velocidade. A vida é assim mesmo, não é?

Saquei do bolso o molho de chaves, algumas amareladas pelo tempo, desgastadas. Lembrei de colocar marcações em algumas delas em algum momento, trapinhos de papel com durex que hoje estão carcomidos, letras quase sumindo. Outras só se juntaram as demais para facilitar o acesso a elas em algum momento, como aquela do cadeado da bicicleta que nunca mais andei, ou da porta do apartamento na Brigadeiro Luis Antônio que deixei a anos atrás. Uma coleção de pedacinhos de metal e suas fechaduras nostálgicas.

Mas nessa noite, essa em que cheguei mais tarde do que deveria, eu sei qual chave pegar. A verdade é que ela nunca saiu da posição no aro metálico único dela. Esteve sempre lá quando sem querer colocava a mão no bolso e sentia as ranhuras atipicas que só ela tem, ou quando ao jogar o conjunto sobre a mesa ou prender no suporte da parede, o olhar se perdia em seu brilho e no detalhe azulado de plástico do nome do fabricante.

No fim não teve suspense, não teve ranger ou dobradiça enferrujada. A máquina funcionava perfeitamente bem e abraçou a chave em suas travas como se esperasse a uma eternidade por ela. 

Aquela porta, a que levei anos demais para reabrir, a que deixei para trás sem entender porque,  a que ignorei quando passei em frente perdido, a que me encarou quando parei de frente resoluto em demolir tudo, a que me escorou a cabeça quando estive sozinho em delírios obscuros, a que como objeto ainda que incólume tenha esperado por tanto tempo nesse banimento de memórias, se abriu tranquila como quem diz: já era hora meu bem, seja bem vindo de volta. Porque demorou? Por onde andou? Entre! Me conte novas histórias, o tempo segue firme lá fora, mas não se engane, ele passa aqui dentro também, ainda que macio. Aproveite o espaço. Ainda que muito tarde, é cedo para começar e ainda temos algum tempo. 

E assim aqui estou, depois de tanto sobreviver, de tanto viver, de tanto bater e tanto apanhar, de tanto chorar e sorrir e afagar e partir, nessa noite única como somente ela pode ser, voltei ao meu espaço.

Ainda que o silêncio me olhe do lado oposto, não me espanto ou me incomodo. Tomo de volta meu espaço, moverei meus móveis como e quando quiser, deitarei onde for de minha vontade e largarei frases soltas por onde puder. Ainda que no fim todo esse aglomerado de pensamentos vivos acabe por se tornar meu legado (e essa é apenas uma esperança para dias que virão), essa noite devo apenas apreciar mais uma vez a luz e a brisa leve entrando pela porta aberta, afinal, a vida é assim mesmo, não é?

20 de dezembro de 2015

Sobre o monologo irreal

Durante o dia devo criar em média uns mil e quinhentos textos diferentes em minha cabeça.
Ao longo do dia esqueço um por um, metodicamente, como se nada tivesse acontecido.
Ai chega o dia em que encontro alguém para discutir, filosofar, argumentar sobre assuntos diversos de forma agressiva até, e me deparo com algo estranho.
Como pode alguém que argumenta, que pensa e forma uma ideia "x" querer a todo custo expor sua ideia e não escutar nada do que o outro tem a dizer? Como lapidar sua própria certeza sem colocar a prova sua ideia escutando o que outras pessoas tem a falar sobre o caso?
Respeito a ideia de cada ser humano, ainda que não seja a mesma que a minha, que não a aceite, e ao escutar pela primeira vez tento não julgar o que me é dito exatamente para não avaliar precipitadamente.
Mas e quando alguém impõe o que pensa de tal maneira a ir contra qualquer coisa que você diga, inclusive insistindo em um monologo pré montado, bloqueando até qualquer tipo de resposta por não aceitar ser interrompido?
Não sou extremista, nunca gostei de extremismos por não acreditar que eles forneçam uma ideia fiel a realidade, mas sim algo viciado pela opinião própria e fatos corrompidos. Sempre acreditei que exista casos e casos e que tudo deve ser avaliado de forma neutra e exclusiva, pois, para mim, a vontade humana de fazer o bem ou o mal não se pode ser colocada em uma tabela com uma média, mas sim vista sob o aspecto particular de cada indivíduo.
Ou seja, antes de julgar o ocorrido, entenda a história, compreenda o que aconteceu, e conheça quem participou, um por um. Só assim é possível ter uma ideia mais próxima do ocorrido.
Exemplo? Acreditar que pessoas pobres são segregadas pelo meio em que vivem, pelo capitalismo ou por qualquer outra força externa me parece pouco provável, já que cada um é dono de si mesmo e pode guiar seus passos muito bem a partir do momento em que tem plena noção do que se está fazendo, e hoje em dia, me corrijam se eu estiver errado, acontece muito cedo, ou pelo menos muito mais cedo do que quando eu tinha 15 anos, anda que exista a necessidade de se estudar caso a caso.
O fato é que todos podemos aprender, ganhar mais conhecimento e mudar nosso mundo particular, indiferente do meio em que vivemos ou da forma que fomos criados.
Cada um tem poder sobre seu próprio destino e sobre o que quer fazer a seguir.
Existem milhares de atenuantes e problemáticas, já que estamos sempre suscetíveis as vontades de terceiros ou a acasos fora de nosso controle, mas inevitavelmente todos iremos viver até onde for possível, e essa é uma escolha particular, uma vontade própria, um ato deliberado de uso do pensamento individual para seguir em frente.
Então não me venha com essa história de que não temos poder sobre nossas vidas, de que não tenho forças para alcançar níveis maiores ou ser alguém melhor ou com mais recursos.
Só mexendo com meu livre arbítrio pra me fazer escrever assim mesmo...

20 de outubro de 2015

Velho amigo

Então é nisso que nos tornamos, meu bom amigo?
Era nisso que estivemos pensando nas noites em que, sentados pelos bares da cidade, observávamos o movimento, o ir e vir da modernidade? Era disso que falávamos entre um gole e outro de cerveja e a incerteza que vinha ao amanhecer?
Lixos insones que eramos, acreditando em um mundo terrivelmente poético, diluído no fundo do copo de cachaça.
A poesia só existe para os que transformam a realidade em nuvens espessas, podendo atravessar por ela incólume, sem se preocupar que dissolva em suas mãos algo impossível de segurar ou guardar, que na pele só deixa o frio do contato e uma vaga lembrança, nada mais.
Não sei sobre sua realidade, se senta no sofá da sala para beber e escutar a nostalgia assoviando velhas canções, se afaga o cachorro fiel que lhe caga no tapete uma vez por semana, se abre o livro morto na estante que nem se lembra de ter comprado, se torce o nariz para o sabiá laranjeira madrugador, se o quer morto pelo coração ou se quer que alguem lhe salve.
Salvem o passarinho, e bem longe de você.
Te lembro a história de um outro amigo daqueles tempos, que, perdido na noite, se via entregue ao volante emborrachado do carro a dar voltas pela cidade. Nos parecia tão impossível chegar a uma realidade tão infeliz e solitária, independente do que viéssemos a viver.
Mas e se ao ter tudo, descobre-se não tendo nada? E se o sentir-se satisfeito vier somente ao fim do tanque de combustível? Seria a ultima gota de álcool o fundo do poço? Evitemos subidas meu querido amigo, tentemos as marginais.
Ah! Decidiu subir? Quantos degraus tem esse altar? Se olhar para trás, diga-me, o quão marginal tornou-se aqueles tempos de desordem e obscuridade? E mais, a pergunta que não cala, o que tem nesse enfeitado plano divino, valeu o dizimo pago?
Sinto lhe dizer meu velho, o copo sobre a televisão já não funciona. Temos telas planas e não existe mais espaço para pedir que o tempo mude, orar por um retorno ao passado ou resgatar uma vida não vivida.
Mas você já sabe de tudo isso, não é mesmo? É claro que sabe! Sempre soube!
Quanto a mim? Sim, você vai gostar de saber.
Tornei-me o cachorro raivoso que protege a ninhada e esconde ossos no quintal para roer mais tarde.
Mas veja como a vida é, tornando impossível que me esqueça da localização dos esqueletos, me presenteando com um circulo intimo de fantasmas que teimam em me lembrar qual o cardápio do jantar, para que eu volte a remoer velhas lembranças.
E aqui, meu velho amigo... meu velho e bom amigo... remoo você.
É nisso que nos tornamos, é com isso que teremos de lidar.
Até algum dia.
Quem sabe.

23 de outubro de 2014

Trunfo

Procuro por um trunfo
nada demais
uma carta de momento
um momento numa mão

Um trunfo pra jogar "na lata"
pra gritar na cara do ladrão
virar o momento do jogo
lançar as peças pro ar

Preciso de uma jogada de ouro
uma luz inesperada
uma mudança nos acontecimentos
um brilho vindo do escuro

E vira
pode apostar
como quem não quer nada
como quem não deveria estar lá

E vira
como uma brisa numa tarde
ou o sopro do inesperado
um acontecimento esperado


27 de janeiro de 2014

O Cobrador

'Que porra é essa Oswaldo? Tá ficando louco? Quer me foder? Se os acionistas lerem essa merda eu tô perdido!"

Seu Magela não se aguentava, vermelho de raiva, suando pelas temporas, gotejava na camisa social encardida, amarelada.

O Oswaldo travado nas quatro rodas, congelado na cadeira, sorriso mais pra um quarto de boca.

O que aconteceu é que no dia seguinte, logo pela manhã, alguns leitores revoltados com a pseudo homenagem, resolveram ligar para a redação e meter a boca!

Quem em sã consciência diria "receba de peito aberto" alguém com uma morte tão terrivel quanto a Judithe teve? Isso não pode, não é cabivel! Esse cara tem de ser esquartejado em praça publica! - disse um dos leitores.

O fato é que pegou mal, mas não tinha como voltar atrás.

O Magela, preso pelo saco, deu sermão mas não demitiu. Mandou ficar esperto e parar com a palhaçada, pensar antes de escrever, mas o coice das pessoas foi tão forte que o Oswaldo ficou triste.

Pô, ela era boa... e era boa também... tá certo, tô errado... quer saber, vou lá prestar homenagem... me ajudou tanto que não posso deixar passar batido. Vou lá prestar homenagem.

E assim o Oswaldo saiu da sala, rabo entre as pernas, pensando no mal que fez pra pobre da Judithe, que a unica coisa que fez de errado foi se vender, ainda que tenha sido por um bem maior... ou menor... dependendo do cliente...

A Judithe demorou pra ser enterrada. Como o erro foi do médico, o legista responsavel pelo corpo, enquanto tentava levantar alguns trocados para fazer um laudo positivo a favor do dignissimo doutor, acabou levando mais tempo que o necessario e o enterro acabou atrasando para a tarde daquele mesmo dia em que Oswaldo saia do escritório.

E assim, lá pelo meio da tarde, o Owaldo pegou o ônibus, todo arrependido, em direção ao cemitério. Ia dar tempo de chegar no enterro e prestar as ultimas homenagens, talvez dar ajuda a familia, mesmo que ele precise mais de ajuda do que qualquer outro.

Levou algum tempo no terminal, mas o ônibus chegou. Subiu, pagou a passagem e sentou no banco bem ao lado do cobrador, e mal sentou o danado, com um sorriso insano, perguntou:

"Enterro moço?"

O Oswaldo, assustado respondeu de pronto:

"Pois é..."

Um sorriso surgiu no rosto do rapaz sentado no banco lateral, como se ele estivesse esperando exatamente aquela resposta.

" Enterros são complicados, não fique assim não. Todo mundo morre, você vai morrer, eu vou morrer, todo mundo vai pro saco, a vida é assim. Mas sabe o que é legal? Os mortos! São lindos! Inocentes! Eles morrem e puff! Lá tá um corpo, puro de tudo! Qual o nome do senhor?"

" Oswaldo... você sabe...?"

" Lazaro!"

17 de maio de 2013

Sobre o tempo

Pois vais me esquecer
como em acordar num dia qualquer
por ter tanto o que fazer
não tendo tempo para pensar

Pois vai me destroçar
ao beijar outras bocas
outros lábios enigmáticos
outros sonhos vais sonhar

Pois vai me abandonar
como que larga o que não lhe serve
num balde de simples dejeto
no passado

Mas veja minha criança
isso nada mal fará
as águas da vida jorram pela fonte
e dela tu há de beber

O mal que fará
tornar-se bem em segundos
por mais que não vejas
será o que sentes

A vida há de seguir em frente
resultados aparecerão a todas as perguntas
desejos se formarão sem que perceba
o rumo que está tomando

Seu mundo há de seguir girando
como sempre esteve enquanto dorme
hoje sou eu a tirar teu sono
amanha será certamente outro conto

O tempo há e seguir indiferente
Não importa o que aconteça
voltar ou seguir serão o mesmo
teu desejo é quem dará o ponto

Mas veja minha criança
Isso não será de todo mal
É a vida que seguirá em frente
é o amor de outra forma

O bem que fará
tornar-se realidade em segundos
por mais que não sintas
será o que vive.

AURIN

A alguns anos atrás fiz uma tatuagem nas costas.
Essa tatuagem significava muito para mim na época.
Eram duas cobras, uma negra e uma branca, entrelaçadas, mordiam uma a calda da outra, uma espécie de cópia da imagem do infinito, mas com um significado diferente do habitual.
Muita coisa aconteceu desde então, e foram tantas as jornadas pelas quais me aventurei que seu significado, bem como de onde provinha tal simbolo, tornou-se desgastado e então esquecido.
Mal sabia eu que todos os caminhos estavam certos, e que invariavelmente acabaria no mesmo lugar.
O simbolo tatuado em minhas costas é a cópia do AURIN, um amuleto que lhe concede todos os desejos que tiver, porem lhe cobra uma de suas memórias em troca, e desde o dia que reproduzi sua imagem em tinta na minha pele, tenho feito desejos atrás de desejos, ao ponto de esquecer quem eu realmente era.
No livro, “História sem Fim”, contando o que se passa de uma forma que não entregue todo o jogo, os desejos guiam o personagem até sua vontade única, até seu desejo derradeiro que, ao mesmo tempo em que lhe mostra o que quer, lhe cobra sua ultima lembrança, esquecer a si mesmo, seu nome, esquecer quem você é.
Foi isso o que esqueci, quem eu era de fato, e mais uma vez me vejo frente a minha vontade absoluta que, nada mais é, que o amor.
Sim, minha vontade única é amar, é dar amor da forma mais pura, a, praticamente, me doar por inteiro por amor, e esse é o dom mais precioso, é o que faz eu ser quem sou e fazer as coisas que faço.
Porem, voltando a questão do simbolo AURIN, as cobras se prendem por uma razão obvia. Nenhum mal é absoluto ao ponto de bem algum lhe vencer as forças, bem como o contrario que se aplica, portanto uma segura a calda da outra de forma a controlar e balancear o rumo da vida.
Caso se soltem, o mundo tornaria-se uma loucura e certamente acabaria.
O fato é que ser bom demais invoca certa carga de coisas ruins, traz para sí, inevitavelmente, atitudes maléficas de outros, quase como algo incontrolavel e basicamente inevitável.
Fui bom com muitos, dei meu melhor e sofri demais, da mesma forma que fui malvado de forma absoluta com outros e o bem mostrou-me como as coisas deveriam ser.
O simbolo em minhas costas significa o meio termo, o ser bom e o ser mal. O ser balanceado sem esquecer quem eu sou, mas ao mesmo tempo sem esquecer o que as pessoas representam.
No final, o simbolo nas minhas costas representa  amar as pessoas e o amar a mim mesmo, nem mais, nem menos.
Hoje me banho nas águas da vida, mais uma vez esqueci quem sou para reaprender o que significa o amor que sinto, e mais uma vez me ponho no eixo.
Vou seguir o fluxo da vida, dando meu melhor para tudo e todos, inclusive para mim mesmo, não importa o que aconteça.

21 de março de 2013

Febre em dia cinza

Acordei suando frio.
A febre forte era amenizada pela brisa suave que passava pelo vão da janela semi-fechada, mas não era o suficiente para acalmar o calor mórbido que latejava em mim, ao mesmo tempo em que me fazia tremer  e sentir cada osso do meu corpo a congelar.
Parado a porta do quarto, uma sombra, de braços cruzados, me olhava atentamente. Não pronunciava palavra alguma, tão pouco fazia menção de mover-se, seja para se aproximar ou abandonar-me ali, mas permanecia imóvel, incólume, como quem aguarda o inevitável.
Enquanto isso, um outro eu, sentado no sofá da sala, se deliciava com um pote de sorvete, parando momentaneamente em busca de um gole ou outro da cerveja gelada repousada sobre a mesa de canto.
Na televisão a sua frente o jornal local anunciava um assalto a banco. O suspeito, um rapaz magro e alto, barba e chapéu, era procurado por todo o país no que já era conhecido como o maior assalto a banco da história.
Em uma das imagens da fuga, a cena de um parque chama atenção, onde um senhor de idade, sentado solitário, fuma um cigarro já pela metade enquanto observa o vai e vem das pessoas.
De volta ao apartamento, uma versão minha deixava cair as chaves após abrir a porta para um outro eu que chegava, malas e caixas, de volta para casa.
O barulho das chaves contra o chão pega de surpresa o garoto próximo da janela que, largando o fio que tinha entre os dedos, se precipita em choro contra a pequena mureta ao ver seu balão flutuando em direção ao céu cinza.
Dobrando a esquina vejo o balão subir mais e mais, e não me surpreendo ao ver a criança cair. Apenas dou mais um passo, e outro, e outro.
Pouco antes do teto do carro receber o impacto, passo a chave na ignição e ligo o radio na espectativa de escutar uma boa musica, uma que embale a viajem ao litoral que viria a seguir.
Do lado do estacionamento, em um parquinho vazio, o balanço me levava cada vez mais alto, em um angulo quase horizontal, numa vontade de alcançar as nuvens, enquanto, dando impulsos ada vez mais fortes com as mãos, eu permanecia parado logo atrás da cadeira de balanço, pronto a correr e segurar o corpo no ar antes de qualquer queda.
Da janela do outro quarto eu me via empurrando o balanço, e sentia a vontade inocente de me juntar a bagunça, mas havia trabalho a fazer. Sempre há.
Era tanto trabalho que eu permanecia sentado a mesa, debruçado sobre tantos projetos, tantos planos, que nada era produzido.
Para variar eu não ajudava em produção alguma, parado na porta, pensando em algo que pudesse parar a febre e a dor.
Na cama, todos "eus" se reuniam no fim das contas, todas as possíveis realidades, todas as sensações, todos os desejos, todas as fugas, todas as mortes, todo renascimento, todos os sustos, todas as alegrias, todas as perdas, todas as vidas.
E todos me mostravam quem sou, quem poderia ser, quem fui um dia.
E aquele inevitável momento se aproximou, parou ao lado da cama, agachando a meu lado. Sopra a palavra em meu ouvido:
- Levanta! 

30 de janeiro de 2013

O Missil

Entre chutando a porta
arrebente as fechaduras
você não pode parar agora
não importa quem esteja atrás

Seja um míssil desgovernado
seja um jorro de napalm na pele
seja a explosão que quiser
quando a bomba explode nada mais sobra

Não há mais tempo para mensagens
nem compreender os desencontros
o tribunal está fechado
o caso foi julgado

E quando o amanhã chegar
e sim babe, ela vai chegar
talvez você perceba a falha
a resposta que o mundo não entregou

Entre derrubando a parede
atirando nos corpos pelo caminho
são todos feitos de açúcar
não importa o coração que esteja atrás

Seja uma palavra não dita
seja o sorriso contido
seja o olhar desviado
quando a raiva explode nada mais sobra

Não há mais tempo para desculpas
nem controlar os impulsos
o juri foi encerrado
o réu foi culpado

E quando o amanhã chegar
e sim babe, ele vai chegar
talvez você perceba a falha
a vida que deixou de levar

29 de janeiro de 2013

Socos

Olha só, esse aqui foi escrito meio no susto, um apanhado de ideias que jorram na minha cabeça hoje e que de certa forma esta meio cru ainda, mas são coisas que eu precisava soltar.

Um apanhado de sensação que eu precisava explicar melhor até pra mim mesmo, mas que ainda é meio difícil de resumir.

Esse texto é mais como uma forma de dizer que as vezes é necessário viver sem se importar muito com os efeitos colaterais de nossas escolhas, já que o que é bom para mim nem sempre é positivo aos olhos alheios.

E aproveito ainda para dizer que viver é preciso, da mesma forma que deixar que as pessoas a nosso redor também tenham suas vidas é extremamente necessário.

Por favor, comentem minhas loucuras, ok?

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Os nós de seus dedos estavam em chamas, e ele não estava nem na metade do serviço quando a primeira gota de sangue escorreu pela ferida que se abria com o impacto do punho fechado na parede.

Naquele dia em especial, que poderia bem ser apenas mais um em tantos, ele decidira que era hora de resolver todos os problemas em sua vida, e para isso, lembraria de todos os seus feitos e de tudo que ainda tinha por concertar.

Porem, em uma catarse mais dolorosa, decidira que, para cada decisão errada que ele havia tomado em sua vida, um soco deveria ser dado em uma parede, e a dor seria o suficiente para lembrar e penalizar sua alma por todo mal que poderia ter causado as pessoas.

A janela estilhaçada por uma pedra, o chute na canela do colega de classe, a mentira contada para não ir a aula, a roupa suja de barro jogada fora para que ninguém soubesse, o telefonema avulso no meio da madrugada que acordou um desconhecido, o gato apedrejado da vizinha,  a namorada que pulou a janela do quarto para fugir, o carro batido em um racha, a bebedeira insana e as drogas usadas, os amigos abandonados ao tempo, os amores não compartilhados, os amores inventados, os amores por interesse, os trabalhos esquecidos, as faltas e os atrasos por displicencia, a má vontade em ajudar, e tudo isso nem era a metade quando sua mão já estava em frangalhos.

Todas as faltas estavam sendo pagas a cada murro, e o osso já se despedassava quando um pensamento doentio varou por sua mente.

Durante todos esses anos, frente a todos os feitos, um personagem importante havia sido sacrificado e sofrido com tudo isso, um personagem único vivenciou todos esses momentos e hoje estava jogado no chão da sala com os punhos ensanguentados. Um ultimo mal foi causado e para esse não tinha volta e muito menos punição viável.

Durante tantos anos ele havia feito o mal para si mesmo, havia buscado a maldade e o mal cobrava de sua vida pelas coisas ruins que fizera.

A sua frente a parede vermelha sangue pedia mais um tributo, mas não era para acontecer.

Frente a toda maldade, e a toda bondade, o homem ainda tem uma escolha. Ninguém pode ser bom demais sem correr o risco de sofrer um dia com a maldade, da mesma forma que ninguém é mal demais que um dia não possa ter um ato puro de bondade. O ciclo seria formado por atitudes que, de acordo com o livre arbítrio, poderiam ser boas ou ruins, dependendo do ponto de vista.

Para aquele rapaz destruído, sobrava agora a esperança de salvar sua alma dando uma simples segunda chance para viver, e tomar as decisões corretas.

Porem, perguntas ainda pairavam no ar: Será que nos culpamos pelos motivos corretos? Será que realmente somos dignos de culpa? Será que se retornássemos no tempo poderíamos mudar as coisas sem se arrepender das mudanças que ocorreriam no futuro e por consequencia sucumbir a tentação de mudar tudo novamente? Quantas vidas seriam necessárias para se chegar a uma vida de bondade plena sem intervenção do mal, ou até mesmo o contrario? Quantos socos seriam necessários para percebermos o valor de cada gota de vida que escorre a todo momento de nós?

Saint Exupéry nunca fez tanto sentido quando diz que o essencial é invisivel aos olhos.

12 de janeiro de 2013

Seu Oswaldo: O Trabalho

Sentado em sua cadeira de costas flexíveis, atrás da mesa estava o editor chefe, Seu Magela, distinto cidadão, da nata paulista, separado duas vezes, casado com a filha de um deputado de renome, cinco filhos e carro novo no meio fio.

Se sentindo um lixo pela ressaca do dia anterior, o Oswaldo estava lá bem a sua frente, jogado na cadeira, secando o suor da testa com as costas da mão esperando para saber o que lhe reserva a nova função.

Seu Magela por outro lado não tinha real intenção de contratar o mulambento porque, veja bem, cabide de empregos, ainda mais em um jornal de renome, fica difícil explicar aos olhos sedentos por coisas erradas, mas o amigo que o trouxe sabia lá de uma ou duas pendengas que poderiam facilmente ligar o digníssimo Magela a crimes que custariam muito mais que somente seu emprego, então o negócio foi fechar a boca e engolir a mosca a seco.

No entanto uma vaga surgira, minima, e como não tinha fins lucrativos ao jornal serviu bem ao companheiro em necessidade.

O Magela foi rápido, o negócio era o seguinte: Me chega todo dia lá pelas dez da noite, recolhe os comunicados de óbito que a Roseli da recepção vai largar na mesa, veja lá quem morreu e escreve umas duas linhas de elogio ao defunto, levando em consideração o que o fulano fazia em vida. Se for alguém importante rasga seda sem dó mas não passa de quatro linhas se não a coisa fica feia depois. Vai que morre politico? Até explicar porque usou meia pagina pra fazer um quadrinho de óbito vai ser difícil. Faz tudo bonito, escreve e manda para a impressão. Terminou vai embora . E se usar a privada do escritório tenta ficar só nos líquidos ou vai ter de ir encher o balde com aguá pra ajudar a descer qualquer coisa que tiver por lá.

Com isso o Oswaldo já estava apavorado! Estava de certo modo feliz por não ter de ir a campo colher noticias em cenas de crime ou pagar mico em saída de time para o vestiário, mas dai a escrever sobre gente morta era uma sacanagem, ainda mais sem conhecer nenhum deles antes, mas o Magela até que facilitou, já que o jornal pedia gentilmente que as famílias mandassem lá uma foto do presunto ainda com vida em alguma atividade de que gostava, com a desculpa de que poderiam eventualmente estampar a foto ao lado do quadrinho, mesmo que em dez anos de jornal nenhuma foto tenha sido utilizada com o propósito, mas sim para alimentar a imaginação do funcionário anterior, que dias antes ganhara um quadrinho com algumas palavras reconfortantes em sua própria seção.

Já no primeiro dia de trabalho nosso querido Oswaldo passou sufoco. Sentou frente a maquininha de escrever de seu minusculo escritório , passou os olhos rapidamente por algumas das folhas com fotos coloridas grampeadas, esfregou a palma da mão na calça para tirar o suor da ponta dos dedos e suspirou um “seja o que deus quiser”.

Primeiro óbito a gente nunca esquece e foi justo o da Dona Maria Alcina Mendes, partiu aos 95, família modesta, na foto aparecia segurando uma vassoura em um corredor de escola, com um corpinho de 50 anos, meio corcunda, saia rosa até o pé e camiseta branca.  Constava morte por idade.

Morre Maria Alcina Mendes, vividos seus 95 anos, varria um corredor como ninguém.

Passara fácil, abriu sorriso no rosto encardido, ligou o radinho a pilha no exato momento em que Miltinho cantarolava “Lembranças” com sua voz macia, uma feliz coincidencia talvez.

Partiu para o próximo, Calvino Salvador, 88 anos, aparece na foto dentro de um Fusca velho, sorriso no rosto, gordo, talvez uns dez anos antes de empacotar. Constava morte por asfixia.

Calvino Salvador, 88 anos bem vividos, agora dirige seu Fusca pelo céu.

Pelo céu sim, e agora certamente o fusca não iria mais engasgar em marcha nenhuma, pensou rindo.

Gostando do resultado o Oswaldo logo começou a gostar da coisa, e como sempre faz quando gosta de algo, tira a garrafa de cana da pasta de couro surrado e dá logo uns dois tragos direto da garrafa. Olhou as fotos sobre a mesa, ergueu a garrafa sobre elas, fez um brinde a seus novos companheiros de madrugada, lançou um golinho pro santo ao lado da cadeira e deu mais um gole bem servido.

A cana bateu fundo no estomago vazio, mandando ao cérebro uma mensagem violenta de que aquele corpo iria levantar daquela cadeira no pileque já conhecido de dias anteriores, mas o Oswaldo era forte,  e a noite só estava começando.

O próximo ele conhecia, Dona Judithe, a solteirona louca que aparecia vez ou outra no boteco para arrumar alguma companhia, e sem cobrar nada por isso. Na foto ela estava bem arrumadinha, visivelmente mais magra, usava um sutiã preto que aparecia por detrás de uma blusa branca . O Oswaldo se lembrava daqueles peitos, mas não se lembra de ter visto ela usar sutiã nas vezes que apareceu para fazer festa. No cartão de causa de morte constava  morte por erro cirúrgico durante uma operação no pulmão. Meio bêbado, Oswaldo, lamentando a perda da conhecida, escreveu lá:

Judithe Apoliana, nos deixa no auge de seus 45 anos. Que os anjos te recebam de peito aberto.

Oswaldo sorria satisfeito. No fim das contas acabou pagando a Judithe de alguma forma.

22 de janeiro de 2012

Seu Oswaldo: A Virada

Para tudo e todos existe um tempo mínimo para que a responsabilidade por seus atos pese sobre os ombros. Para alguns leva muito tempo, para outros um pouco menos, mas a verdade é que mais dia menos dia isso acontecerá, e com o Oswaldo não foi diferente.

Aquela vida de boteco, de cervejas e cachaça, de putas e farras, toda aquela bagunça teria de acabar, e veio tudo isso com a morte de sua mãe.

Recebia mesada semanal para ficar fora de casa o dia todo, e a velha senhora até gostava de ver o rebento voltar manguaçado pra casa. Assim não perceberia que o pseudo-namorado de uma noite não era bem o mesmo da noite seguinte, nem da seguinte, nem da seguinte, e assim por diante. Filho sóbrio dava problema, mas o câncer não tratado deu mais problema ainda, e a morte súbita da mamãe trouxe uma série de contas a pagar e dividas nunca conhecidas. Era estranho para ele ver que sua mãe tinha recibos de cartão de débito dos mesmos lugares que ele frequentava, e ele sabia que o “comércio de lanches Ltda” não era o que parecia.

Ali então estava a verdade.

Vinte e oito anos, solteiro, mãe morta, fonte de renda esgotada, alcoólatra e tarado, enfim, na merda.

A vida tem um sentido estranho quando da na nossa cara, mesmo que seja sem deixar a pessoa louca a ponto de se matar. A vida da uma saída para melhor e para pior, mas nesse caso o Oswaldo deu sorte.

Um dos amigos de bar, daqueles para os quais o Oswaldo servia as geladas, se importou com a situação precária do mascote e resolveu ajudar como podia. Gastou ali um dinheiro com terno e gravata, e um pouco mais com o Antonio da barbearia e deu um visual mais decente pro Oswaldo. Levou o amargurado a uma entrevista arranjada na redação do jornal, inventou mundos e fundos de dar medo, encheu a bola do Oswaldo a ponto do vagabundo beberrão virar um excelente digitador, e foi assim, sem perceber, que o Oswaldo foi parar na redação do jornal, com sala própria e mesa de mogno, uma maquina de escrever e o desafio de escrever o obtuário do periódico.

E no desenrolar da história toda, em meio a toda a vontade de uma boa cachaça e foder aquela prostituta das antigas, o Oswaldo teve um lampejo, uma visão do que seria sua vida dali pra frente, e tomou a atitude mais honrosa que um homem em seu lugar tomaria.

Saiu da entrevista, sentou no bar mais próximo, pediu sua cachaça com gelo e limão e pensou: Agora fodeu.

18 de outubro de 2011

Mensagem a um grande amigo

Me lembro bem das palavras que saíram de minha boca no dia em que fui convidado por um grande amigo a dividir um apartamento em outro lugar.

Seu pai havia comprado um apartamento muito bonito e confortável em uma região privilegiada de São Paulo para seu filho que, na época, fazia faculdade e morava comigo em um apartamento pequeno e apertado.

Lembro da condição imposta por meu amigo para que a mudança ocorresse: “disse a meu pai que eu só vou se você for.”

Hoje e sempre, e pra quando for preciso lembrar desta ocasião, fiquei muito feliz em receber essa proposta de dividir outro apartamento com esta pessoa que sempre me foi muito próxima.

Desde pequenos dividimos histórias, desafios, o imaginário repentinamente tornou-se surreal e, ao lidar com os fatos, vivemos sonhos como realidade enquanto outros mal sabiam que existia outra realidade além de suas aulas em um colégio de freiras.

Fomos irmãos nascidos em famílias diferentes, estivemos unidos quando a história nos separou em distancia, e nos unimos novamente quando decidimos dividir um pequeno apartamento.

Mas naquele dia em que a noticia da compra de um lindíssimo apartamento em um condomínio de classe média alta chegou a nosso conhecimento, sabíamos que seria o ultimo capitulo de um volume.

De alguma forma impossível de explicar, por mais que coisas boas ainda acontecessem, eu sabia, seria o fim.

Fizemos a mudança, foi um sucesso, levamos todas as coisas de uma vez só em um caminhão caindo aos pedaços, cuja porta do passageiro (onde eu me encontrava) não fechava de forma alguma e o cinto de segurança não existia.

Montamos o apartamento com as poucas coisas que tinhamos, e mesmo com o pouco, era o suficiente para nos sentirmos confortáveis por muito tempo.

Nos divertimos, bebemos em memoria a muitas coisas, bebemos em comemoração a muitas coisas, ficamos sem agua quente, sem geladeira, se luz, sem cerveja, sem absolutamente nada, e mesmo assim estávamos bem.

Vivemos e isso foi muito bom.

Demos inicio a novos projetos, conhecemos novas pessoas, novos lugares, outros mundos, formamos uma nova família baseada em um conceito de irmandade e cumplicidade que muitos julgariam, e o próprio julgar foi quem, no fim acabou com tudo. Mas sou obrigado a dizer, nós já sabíamos que algo ia acontecer, não é verdade?

Pessoas se uniram a nós repentinamente, algumas se despediram de nossas vidas, aquelas que sempre acreditamos que nunca iriam voltar acabaram por se juntar a nós quando menos esperávamos e outras vieram na torrente de paz que vinha da convivência que nós criamos.

Não tenho medo de dar nomes...

Erika, aquela que voltou após muito tempo e a menina na qual temos muito orgulho por seus feitos e por sua energia.

Flavia, a menina decidida, doce, da rebeldia que encanta por ter toda a paz que nunca tivemos e que fez parte de nossa família e nos ensinou muita coisa.

Jack, que nós cuidamos sempre, por carinho e amor e que hoje está lá firme e forte!

Rafael, o viking que nos acompanhou nas jogatinas e discussões, nas bebidas e nas curtições.

Thomas, o boemio, de ideias maravilhosas, discussões filosóficas e noitadas de boa musica e cerveja.

Felipe Munhoz, parceiro filosófico e sempre com um bom gosto musical muito a frente de nossas expectativas.

Karen, de repente se uniu a nossa família, se mostrou parte dela a muito tempo e hoje é minha amada esposa.

Existem outras pessoas a acrescentar nessa lista, muitas outras pessoas se pararmos para pensar, mas numera las nunca foi nossa vontade, mas sim ama-las, estar presente em todos os momentos, viver ao lado delas plenamente.

Quanto a mim, não sei, só você pode dizer o que pensa sobre o assunto, e de certa forma já sei o que você vai dizer, ainda que me faça chorar, seja com suas palavras ou com seu silencio.

Meu irmão, meu parceiro, não o culpo, nunca terei motivo para isso e sequer passa em minha cabeça tentar encontrar motivo para tal. Sabíamos desde o inicio que existiria um fim e que o mesmo permanecia fora de nosso controle.

Porem me recordo que os que hoje se encontram próximos a nós, um dia se recusaram, se fecharam, preferiram a reclusão em suas vidas ao invés de escutar a verdade que gritava em seus ouvidos, e hoje só eles sabem o que viveram e o que foi preciso fazer para chegar até aqui.

Você, meu irmão, foi o único que sempre se manteve forte, mas chegou seu tempo de reclusão, e que ele dure o quanto você achar que é necessário, mesmo que seja para toda vida, mesmo que você acredite que sua reclusão seja sua salvação, ou o que for. Só você sabe o que quer viver e o que quer fazer.

Não sou do tipo que vai chutar a sua porta insistentemente, que vai atropelar a sua vontade para impor a minha opinião, por isso nada fiz no dia em que o fim chegou.

Porém todos os dias, todos eles, penso no grande irmão que tenho e como seria bom dividir algo que vivi ou experimentei, como seria interessante estar a seu lado para conversar, discutir, filosofar ou apenas ficar em silencio.

De volta ao mesmo prédio em que moramos antes da mudança, no mesmo andar, em um apartamento logo ao lado sinto a mesma sensação que tive a muito tempo atrás, como se me colocasse como um fantasma naquela sala no mesmo dia em que resolvemos nos mudar.

Indiferente ao que lamentavelmente aconteceu, aos desencontros que tivemos antes do fim, as conversas que prometemos ter e que nunca tivemos por vários motivos, indiferente a qualquer acontecimento fora de nosso controle, estamos bem, estamos vivos.

Eu casei com a Karen, estamos felizes, moramos em um apartamento pequeno mas imensamente confortável. Temos planos de ter uma filha, de comprar um apartamento melhor e tomar cervejas diferentes. Mudei de emprego, ela saiu daquele em que estava e está lutando por seu sonho de ser arte finalista.

Em todas essas mudanças pelas quais passamos, você fez e faz muita falta meu irmão, e sempre fará.

Iremos nos encontrar no futuro, e você sabe disso tanto quanto eu, seja no mundo real, seja em nossos sonhos.

Cada um teve seu tempo. Esse é o seu.

23 de fevereiro de 2011

Imparcialidade


Estive me perguntando ultimamente o que vem a ser imparcialidade no mundo real.

As pessoas brigam, se desentendem com facilidade, e a primeira coisa que lhes vem a cabeça é que precisam de alguém para solucionar o impasse, montar o quebra cabeça e separar o certo do errado, e essa pessoa, coroada momentaneamente como detentora da justiça, da paz e da ordem nem sempre escolhe um lado baseado nos fatos, mas sim colocando na balança suas afinidades com as pessoas, ou o que tem a ganhar solucionando o problema.

Existe ainda a opção de nem escolher um lado, não por estarem ambos errados, mas para dar o chamado efeito "tirar o corpo fora". No bom português seria algo como "não tem a ver comigo, dane-se."

Muitas pessoas tem uma concepção de justiça que considero um tanto falha. Pensar que sempre existe, dentro de um embate técnico, uma pessoa que esteja errada e outra certa pode ser um tiro no pé, pois as pessoas mentem, disfarçam, omitem provas, confundem, manipulam outras pessoas, tudo no intuito de se safar ou de ganhar algo.

E cabe as vezes a apenas uma pessoa decidir qual lado apoiar, sem muitas delongas, sem a chamada democracia, sem fazer valer a opinião dos outros. Afinal é ela quem vai dar a ultima cartada, não é mesmo?

Quando penso em imparcialidade me lembro de três coisas.

A primeira é a versão de "como se deve fazer justiça" que tenho e acredito que deva ser o método que funciona na teoria, mas na pratica poucos seguem. Sempre existirá o problema, e com ele existe no mínimo duas pessoas. Para elas existirá o certo e o errado, mas para a justiça deverá existir apenas os fatos. Sem emoções, sem compaixão, simples e puramente realista.

A segunda é uma perguntinha filosófica que diz: Se uma árvore cai na floresta e não houver ninguém por perto para ouvir, ela vai fazer barulho?

A resposta é que, levados pela necessidade de presenciar o fenómeno, não podemos afirmar com absoluta certeza que ela vá fazer barulho ao cair, mas o bom senso (ah o divino bom senso!) nos faz crer que ela fará sim, já que teríamos vivenciado essa experiência anteriormente, seja pessoalmente ou de qualquer outra forma, como assistindo um video, por exemplo. A imparcialidade nesse momento entra como um soco para mim, porque muitas pessoas usam o bom senso, outras simplesmente acham que a árvore nem ao menos existe, já que "Vossa Alteza" não estava lá para presenciar.

A terceira é a forma como certas formas de poder, ou que tenham grande impacto sobre as massas, devem tratar a imparcialidade, e vem direto do dicionário.

Imparcialidade vem da palavra imparcial, que significa:

adj. Que não sacrifica a justiça ou a verdade a considerações particulares.
Que não tem partido a favor nem contra: juiz imparcial.
Justo, reto, equitativo.

Em um mundo onde visivelmente as pessoas escolhem o particular ao invés do publico, acho que o destino da imparcialidade é permanecer no dicionário mesmo...

27 de janeiro de 2011

Corotinho


Ele bebia, todo mundo sabia, mas qual era o problema? Bêbado que é bêbado não se esconde!

Essa história vem lá do interior, Atibaia, sobre um camarada que ninguém lembra o nome, e nem lembraria mesmo, já que sua sua vontade por uma dose de cachaça era muito maior do que qualquer apresentação.

Pense em alguém que é bêbado com orgulho, sem ser aquele chato que gruda no seu pescoço ou que inventa de contar todas as histórias do mundo em uma língua inexistente para as pessoas sóbrias. Pense em alguém que na primeira hora do dia vem lá de qualquer lugar, meio cambaleante e lhe pede para comprar uma aguardente vagabunda ao custo de um real.

Sim, esse é o cidadão de nossa história, e para termos um nome apenas para lembrar, vamos chamar esse homem de "Corotinho".

Corote, lá no interior, diz respeito a embalagem na qual a aguardente vinha envasada, e a qual, todos os dias, nosso amigo Corotinho pedia aos transeuntes. Não era um pedido de bêbado chato, grudento e seboso, mas de uma pessoa educada, fina, que primeiramente gostava de saber como estava seu dia, para onde você iria e o que faria, logicamente iniciado por um bom dia, boa tarde ou boa noite. Detalhe, sempre com um largo sorriso!

Imagine-se indo para o trabalho, sete e meia da manhã, gosto de pão com manteiga e café com leite ainda passeando pela língua recem escovada. O caminho é de barro batido com um pouco de cascalho nas bordas para chupar a água das chuvas. Nesse caminho de meia hora para o trabalho, você cruza com um senhor de cabelo despenteado, camiseta pólo azul sem os botões da gola, o barrigão escapando por cima da fivela do cinto, calça pega frango e chinelos gastos. Ele abre um sorriso onde faltam todo o time de dentes, sobrando talvez o centro avante e um ou outro zagueiro no fundo.

Se estivessemos em São Paulo, certamente não daríamos atenção, mas no interior é diferente. Em cidade pequena todo mundo se conhece e sabe de onde vem. Minha mãe falava que era o caso de alguém soltar um pum de um lado da cidade e todo mundo do outro lado sentir o cheiro e detectar quem era o dono. Nesse caso não era diferente, pois todos sabiam que o Corotinho morava em uma casinha perto do rio, que não tinha muita coisa por lá além de uma cama para dormir. Família mesmo ele não tinha por aquelas bandas, e somente os mais velhos da cidade sabiam a respeito de sua família e sua origem, e o tratavam com muito respeito e varias garrafas diárias de sua bebidinha companheira.

Todos gostavam dele, não fazia mal para ninguém, era mais educado que muita daquela gente e era sincero de verdade porque não dizia que queria dinheiro para comprar pão e ia gastar com cigarro ou mulheres. Queria mesmo era cachaça e nada mais e aquele que não acreditasse em sua vontade, que comprasse a garrafinha para ele beber ali em frente então.

O caso é que passaram dois dias até o povo perceber que o Corotinho não tinha aparecido nas redondezas do mercadinho ou da padaria como costumava, e junto com um sentimento de curiosidade, as pessoas sentiram um misto de medo e tristeza.

Foram encontrar o corpo em uma das trilhas que dava para sua casa. Jogado no chão, cheio de barro e coberto de moscas, e em suas mãos estava a garrafa de corote, a companheira de todos os momentos, seu único desejo e único presente.

Morreu bebendo, e todo mundo sabia.