20 de outubro de 2015

Velho amigo

Então é nisso que nos tornamos, meu bom amigo?
Era nisso que estivemos pensando nas noites em que, sentados pelos bares da cidade, observávamos o movimento, o ir e vir da modernidade? Era disso que falávamos entre um gole e outro de cerveja e a incerteza que vinha ao amanhecer?
Lixos insones que eramos, acreditando em um mundo terrivelmente poético, diluído no fundo do copo de cachaça.
A poesia só existe para os que transformam a realidade em nuvens espessas, podendo atravessar por ela incólume, sem se preocupar que dissolva em suas mãos algo impossível de segurar ou guardar, que na pele só deixa o frio do contato e uma vaga lembrança, nada mais.
Não sei sobre sua realidade, se senta no sofá da sala para beber e escutar a nostalgia assoviando velhas canções, se afaga o cachorro fiel que lhe caga no tapete uma vez por semana, se abre o livro morto na estante que nem se lembra de ter comprado, se torce o nariz para o sabiá laranjeira madrugador, se o quer morto pelo coração ou se quer que alguem lhe salve.
Salvem o passarinho, e bem longe de você.
Te lembro a história de um outro amigo daqueles tempos, que, perdido na noite, se via entregue ao volante emborrachado do carro a dar voltas pela cidade. Nos parecia tão impossível chegar a uma realidade tão infeliz e solitária, independente do que viéssemos a viver.
Mas e se ao ter tudo, descobre-se não tendo nada? E se o sentir-se satisfeito vier somente ao fim do tanque de combustível? Seria a ultima gota de álcool o fundo do poço? Evitemos subidas meu querido amigo, tentemos as marginais.
Ah! Decidiu subir? Quantos degraus tem esse altar? Se olhar para trás, diga-me, o quão marginal tornou-se aqueles tempos de desordem e obscuridade? E mais, a pergunta que não cala, o que tem nesse enfeitado plano divino, valeu o dizimo pago?
Sinto lhe dizer meu velho, o copo sobre a televisão já não funciona. Temos telas planas e não existe mais espaço para pedir que o tempo mude, orar por um retorno ao passado ou resgatar uma vida não vivida.
Mas você já sabe de tudo isso, não é mesmo? É claro que sabe! Sempre soube!
Quanto a mim? Sim, você vai gostar de saber.
Tornei-me o cachorro raivoso que protege a ninhada e esconde ossos no quintal para roer mais tarde.
Mas veja como a vida é, tornando impossível que me esqueça da localização dos esqueletos, me presenteando com um circulo intimo de fantasmas que teimam em me lembrar qual o cardápio do jantar, para que eu volte a remoer velhas lembranças.
E aqui, meu velho amigo... meu velho e bom amigo... remoo você.
É nisso que nos tornamos, é com isso que teremos de lidar.
Até algum dia.
Quem sabe.

23 de outubro de 2014

Trunfo

Procuro por um trunfo
nada demais
uma carta de momento
um momento numa mão

Um trunfo pra jogar "na lata"
pra gritar na cara do ladrão
virar o momento do jogo
lançar as peças pro ar

Preciso de uma jogada de ouro
uma luz inesperada
uma mudança nos acontecimentos
um brilho vindo do escuro

E vira
pode apostar
como quem não quer nada
como quem não deveria estar lá

E vira
como uma brisa numa tarde
ou o sopro do inesperado
um acontecimento esperado


27 de janeiro de 2014

O Cobrador

'Que porra é essa Oswaldo? Tá ficando louco? Quer me foder? Se os acionistas lerem essa merda eu tô perdido!"

Seu Magela não se aguentava, vermelho de raiva, suando pelas temporas, gotejava na camisa social encardida, amarelada.

O Oswaldo travado nas quatro rodas, congelado na cadeira, sorriso mais pra um quarto de boca.

O que aconteceu é que no dia seguinte, logo pela manhã, alguns leitores revoltados com a pseudo homenagem, resolveram ligar para a redação e meter a boca!

Quem em sã consciência diria "receba de peito aberto" alguém com uma morte tão terrivel quanto a Judithe teve? Isso não pode, não é cabivel! Esse cara tem de ser esquartejado em praça publica! - disse um dos leitores.

O fato é que pegou mal, mas não tinha como voltar atrás.

O Magela, preso pelo saco, deu sermão mas não demitiu. Mandou ficar esperto e parar com a palhaçada, pensar antes de escrever, mas o coice das pessoas foi tão forte que o Oswaldo ficou triste.

Pô, ela era boa... e era boa também... tá certo, tô errado... quer saber, vou lá prestar homenagem... me ajudou tanto que não posso deixar passar batido. Vou lá prestar homenagem.

E assim o Oswaldo saiu da sala, rabo entre as pernas, pensando no mal que fez pra pobre da Judithe, que a unica coisa que fez de errado foi se vender, ainda que tenha sido por um bem maior... ou menor... dependendo do cliente...

A Judithe demorou pra ser enterrada. Como o erro foi do médico, o legista responsavel pelo corpo, enquanto tentava levantar alguns trocados para fazer um laudo positivo a favor do dignissimo doutor, acabou levando mais tempo que o necessario e o enterro acabou atrasando para a tarde daquele mesmo dia em que Oswaldo saia do escritório.

E assim, lá pelo meio da tarde, o Owaldo pegou o ônibus, todo arrependido, em direção ao cemitério. Ia dar tempo de chegar no enterro e prestar as ultimas homenagens, talvez dar ajuda a familia, mesmo que ele precise mais de ajuda do que qualquer outro.

Levou algum tempo no terminal, mas o ônibus chegou. Subiu, pagou a passagem e sentou no banco bem ao lado do cobrador, e mal sentou o danado, com um sorriso insano, perguntou:

"Enterro moço?"

O Oswaldo, assustado respondeu de pronto:

"Pois é..."

Um sorriso surgiu no rosto do rapaz sentado no banco lateral, como se ele estivesse esperando exatamente aquela resposta.

" Enterros são complicados, não fique assim não. Todo mundo morre, você vai morrer, eu vou morrer, todo mundo vai pro saco, a vida é assim. Mas sabe o que é legal? Os mortos! São lindos! Inocentes! Eles morrem e puff! Lá tá um corpo, puro de tudo! Qual o nome do senhor?"

" Oswaldo... você sabe...?"

" Lazaro!"

17 de maio de 2013

Sobre o tempo

Pois vais me esquecer
como em acordar num dia qualquer
por ter tanto o que fazer
não tendo tempo para pensar

Pois vai me destroçar
ao beijar outras bocas
outros lábios enigmáticos
outros sonhos vais sonhar

Pois vai me abandonar
como que larga o que não lhe serve
num balde de simples dejeto
no passado

Mas veja minha criança
isso nada mal fará
as águas da vida jorram pela fonte
e dela tu há de beber

O mal que fará
tornar-se bem em segundos
por mais que não vejas
será o que sentes

A vida há de seguir em frente
resultados aparecerão a todas as perguntas
desejos se formarão sem que perceba
o rumo que está tomando

Seu mundo há de seguir girando
como sempre esteve enquanto dorme
hoje sou eu a tirar teu sono
amanha será certamente outro conto

O tempo há e seguir indiferente
Não importa o que aconteça
voltar ou seguir serão o mesmo
teu desejo é quem dará o ponto

Mas veja minha criança
Isso não será de todo mal
É a vida que seguirá em frente
é o amor de outra forma

O bem que fará
tornar-se realidade em segundos
por mais que não sintas
será o que vive.

AURIN

A alguns anos atrás fiz uma tatuagem nas costas.
Essa tatuagem significava muito para mim na época.
Eram duas cobras, uma negra e uma branca, entrelaçadas, mordiam uma a calda da outra, uma espécie de cópia da imagem do infinito, mas com um significado diferente do habitual.
Muita coisa aconteceu desde então, e foram tantas as jornadas pelas quais me aventurei que seu significado, bem como de onde provinha tal simbolo, tornou-se desgastado e então esquecido.
Mal sabia eu que todos os caminhos estavam certos, e que invariavelmente acabaria no mesmo lugar.
O simbolo tatuado em minhas costas é a cópia do AURIN, um amuleto que lhe concede todos os desejos que tiver, porem lhe cobra uma de suas memórias em troca, e desde o dia que reproduzi sua imagem em tinta na minha pele, tenho feito desejos atrás de desejos, ao ponto de esquecer quem eu realmente era.
No livro, “História sem Fim”, contando o que se passa de uma forma que não entregue todo o jogo, os desejos guiam o personagem até sua vontade única, até seu desejo derradeiro que, ao mesmo tempo em que lhe mostra o que quer, lhe cobra sua ultima lembrança, esquecer a si mesmo, seu nome, esquecer quem você é.
Foi isso o que esqueci, quem eu era de fato, e mais uma vez me vejo frente a minha vontade absoluta que, nada mais é, que o amor.
Sim, minha vontade única é amar, é dar amor da forma mais pura, a, praticamente, me doar por inteiro por amor, e esse é o dom mais precioso, é o que faz eu ser quem sou e fazer as coisas que faço.
Porem, voltando a questão do simbolo AURIN, as cobras se prendem por uma razão obvia. Nenhum mal é absoluto ao ponto de bem algum lhe vencer as forças, bem como o contrario que se aplica, portanto uma segura a calda da outra de forma a controlar e balancear o rumo da vida.
Caso se soltem, o mundo tornaria-se uma loucura e certamente acabaria.
O fato é que ser bom demais invoca certa carga de coisas ruins, traz para sí, inevitavelmente, atitudes maléficas de outros, quase como algo incontrolavel e basicamente inevitável.
Fui bom com muitos, dei meu melhor e sofri demais, da mesma forma que fui malvado de forma absoluta com outros e o bem mostrou-me como as coisas deveriam ser.
O simbolo em minhas costas significa o meio termo, o ser bom e o ser mal. O ser balanceado sem esquecer quem eu sou, mas ao mesmo tempo sem esquecer o que as pessoas representam.
No final, o simbolo nas minhas costas representa  amar as pessoas e o amar a mim mesmo, nem mais, nem menos.
Hoje me banho nas águas da vida, mais uma vez esqueci quem sou para reaprender o que significa o amor que sinto, e mais uma vez me ponho no eixo.
Vou seguir o fluxo da vida, dando meu melhor para tudo e todos, inclusive para mim mesmo, não importa o que aconteça.